Em meio a um noticiário internacional bastante agitado, a Venezuela acabou chamando atenção por um motivo inesperado. Pela primeira vez, uma marca chinesa fechou o ano como líder absoluta de vendas em um mercado ocidental. Segundo dados oficiais da Cavenez (Câmara Automotriz da Venezuela), a JAC Motors superou a Toyota e assumiu o topo do ranking de emplacamentos no país vizinho em 2025.

O feito é simbólico e, ao mesmo tempo, revela mudanças importantes no mercado automotivo local. Afinal, estamos falando de um país que passou anos com vendas em níveis mínimos históricos e que agora ensaia uma recuperação, ainda que cheia de desafios.
Um mercado pequeno, mas em retomada
De acordo com a Cavenez, o mercado formal venezuelano registrou 38.610 veículos novos vendidos em 2025, mais que o dobro do volume contabilizado em 2024. Esse crescimento veio impulsionado por maior oferta de modelos, entrada de novas marcas e uma retomada parcial do consumo.
Mesmo assim, trata-se de um mercado altamente concentrado. JAC e Toyota, juntas, responderam por quase 75% de todas as vendas reportadas no país ao longo do ano.
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JAC Motors: 15.777 unidades (40,8% de participação)
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Toyota: 12.800 unidades (33,1% de market share)
Outro dado curioso é que Ford e Foton conseguiram ultrapassar a Hyundai, que historicamente figurava entre as cinco marcas mais vendidas.
Top 10 das marcas mais vendidas na Venezuela em 2025
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JAC Motors – 15.777 unidades
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Toyota – 12.800 unidades
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Changan – 2.500 unidades
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Fiat – 1.400 unidades
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Ford – 1.197 unidades
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Foton – 1.191 unidades
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Hyundai – 1.180 unidades
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Kia – 651 unidades
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FCA Venezuela (Jeep e RAM) – 650 unidades
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Renault – 478 unidades
Especialistas, no entanto, fazem um alerta importante. Os números oficiais não mostram todo o tamanho real do mercado. Marcas chinesas como Chery, GWM e BAIC também atuam no país, mas não são filiadas à Cavenez, ficando fora do levantamento.
Além disso, estima-se que cerca de 20% das vendas ocorram por meio de importações diretas e canais não oficiais, as chamadas “importações cinzas”. Com isso, o volume total do mercado venezuelano pode ter chegado a algo próximo de 50 mil unidades em 2025.
A estratégia por trás da virada da JAC
O avanço da JAC não aconteceu por acaso. Um dos nomes-chave dessa virada é Enrique Pinochet, executivo que por décadas foi um dos principais estrategistas da Toyota na Venezuela. Após se aposentar da marca japonesa, ele foi recrutado pela JAC para atuar como consultor da operação local.
A combinação de know-how, rede de contatos sólida e uma estratégia agressiva fez diferença. A marca chinesa ampliou sua gama de produtos, aumentou pontos de distribuição e apostou forte na montagem local, algo quase inexistente hoje no país fora da própria JAC.

Modelos como Arena, Nevado e a picape conhecida como “La Venezolana” figuraram entre os mais vendidos do ano, ajudando a consolidar a liderança em um mercado extremamente sensível a preço e disponibilidade imediata.
Toyota segue forte, mas perde o ritmo
Mesmo ficando atrás em 2025, a Toyota continua sendo uma das marcas mais fortes da Venezuela. A japonesa manteve presença relevante e terminou o ano na segunda colocação, mas não conseguiu acompanhar o ritmo de crescimento da concorrente chinesa.
Vale lembrar que a Toyota havia sido líder em 2024 e carrega um histórico longo de protagonismo no país, o que torna essa virada ainda mais significativa.
Gasolina barata muda completamente o jogo
Enquanto em mercados como Brasil e México o avanço das marcas chinesas acontece principalmente com elétricos e híbridos, na Venezuela o cenário é outro. Lá, o litro da gasolina custa o equivalente a cerca de R$ 0,19. Sim, 19 centavos de real.
Com esse contexto, os modelos a combustão seguem dominando as vendas, mesmo com a presença de elétricos no portfólio.
O JAC Arena, por exemplo, é basicamente o antigo S2, lançado na China em 2015 e vendido no Brasil como T40 entre 2017 e 2022. Trata-se do modelo de entrada da marca, com preços em torno de R$ 70 mil, motor 1.5 VVT de 112 cv e câmbio manual ou CVT.
Acima dele está o JAC Nevado, que no Brasil conhecemos como o elétrico E-JS4. Na Venezuela, porém, ele é oferecido com motores a gasolina de 1,6 a 2,0 litros, além de opções de câmbio manual ou CVT.
Já a picape La Venezolana é derivada da T8 chinesa, lançada em 2018. Há versões simples 4×2 a gasolina, com 150 cv, e configurações mais completas, como a Pro 4×4 diesel de 188 cv. No topo da gama aparece a Aventura, equivalente às Hunter vendidas no Brasil, mas com motor a gasolina de 231 cv, já que consumo não é uma preocupação por lá.
A oferta da Toyota no país
Do lado japonês, a gama é ampla. Vai do Agya, um compacto popular fabricado na Indonésia, até o imponente Land Cruiser 300, equipado com motor V6 4.0 a gasolina. Também estão disponíveis modelos conhecidos do brasileiro, como Yaris Cross, Corolla, Corolla Cross e Hilux.
O grande ícone, porém, segue sendo o Land Cruiser série 70, produzido desde 1984. Ele aparece em versões utilitária (“Macho”) ou picape (“Marimacha”), sempre com V6 4.0 de 230 cv. Para quem gosta de 4×4 raiz, é praticamente um objeto de desejo.
Um mercado marcado por altos e baixos
Durante o governo de Hugo Chávez, a Venezuela chegou a produzir 172.418 veículos por ano, em 2007. Já no período sob Nicolás Maduro, a indústria automotiva entrou em colapso, com uma queda de 72% entre 2013 e 2014.
Fábricas de GM, Ford, FCA e Mitsubishi fecharam as portas. A produção local praticamente desapareceu e a montagem de kits CKD chegou ao fundo do poço, com apenas 65 unidades produzidas em 2019.
Hoje, a realidade é bem diferente daquela década de ouro. Ainda assim, chama atenção que a montagem de veículos no país esteja quase totalmente concentrada na JAC Motors, o que ajuda a explicar como a marca chinesa conseguiu chegar tão rápido ao topo.
No fim das contas, o caso venezuelano mostra como contexto econômico, estratégia comercial e adaptação ao mercado local podem mudar completamente o jogo, mesmo em um cenário cheio de limitações.









