A General Motors tomou uma decisão que pegou muita gente de surpresa e expõe uma contradição clara dentro da sua estratégia de eletrificação. Pouco mais de dois meses após iniciar a produção da nova geração do Chevrolet Bolt EV, a montadora decidiu colocar o projeto em espera e transformar a fábrica de Fairfax, no Kansas, em uma unidade dedicada apenas a veículos a combustão.

Na prática, o elétrico mais acessível da marca virou uma vítima direta da política comercial dos Estados Unidos.
Segundo a própria GM, a mudança está ligada à transferência da produção do Buick Envision, hoje fabricado na China, para os EUA a partir de 2028. O objetivo é fugir das tarifas elevadas impostas a veículos chineses desde a era Trump, que foram mantidas e até reforçadas nos últimos anos. Para abrir espaço ao Envision e também ao Equinox a gasolina, o elétrico perdeu prioridade, mesmo tendo acabado de entrar em linha de montagem.
O plano original era ousado e promissor
O projeto era visto como o início de uma nova família de carros elétricos compactos, com preço abaixo de US$ 30 mil. A proposta era clara: popularizar os EVs nos Estados Unidos e colocar a Chevrolet novamente como referência em modelos acessíveis.
Além disso, a nova geração trazia baterias LFP fornecidas pela CATL, consideradas mais seguras e baratas do que as antigas células da LG, que causaram um dos maiores recalls da história recente da marca, inclusive no Brasil. A troca eliminava o risco de incêndios, reduzia custos e alinhava o produto ao padrão que já domina o mercado chinês e começa a crescer na Europa.
Mesmo assim, a produção deve durar pouco mais de um ano e meio, deixando o plano original em suspenso.
Tarifas e política pesaram mais que tecnologia
O problema não está no carro, mas no contexto. As tarifas contra produtos chineses tornaram politicamente inviável um veículo popular dependente de baterias vindas da China. Ao mesmo tempo, a pressão por reindustrialização levou a GM a priorizar SUVs a combustão feitos localmente.
Um paradoxo difícil de explicar
O movimento chama ainda mais atenção porque a GM foi a montadora que mais vendeu elétricos nos EUA fora a Tesla no último ano, impulsionada pelo Equinox EV e pela linha Cadillac. Mesmo assim, decidiu frear justamente o modelo que poderia escalar volume e baratear a tecnologia.
A empresa também admitiu recentemente que sofrerá um impacto de cerca de US$ 6 bilhões ao reduzir o ritmo dos investimentos em eletrificação. Em vez de acelerar a transição, optou por um caminho defensivo: proteger margens e produção local, mesmo que isso custe relevância no segmento de entrada.
Reações e incertezas
A repercussão foi negativa. Muitos enxergam a decisão como um retrocesso e um desperdício de investimento. Outros veem como uma capitulação à política tarifária dos EUA, que acaba isolando o país do ecossistema global de veículos elétricos.
Há quem aposte que o modelo possa renascer em outra fábrica no futuro, mas isso ainda é pura especulação. O fato concreto é que um projeto recém-lançado foi engavetado para dar lugar a SUVs a combustão.
Um vazio no mercado de elétricos acessíveis
Com essa decisão, a GM cria um vácuo no segmento de elétricos baratos nos Estados Unidos. O prometido “next-gen affordable EV” segue sem cronograma e sem plataforma definida. Até lá, a marca dependerá de modelos mais caros e de menor volume, enquanto a Tesla mantém liderança e fabricantes chineses avançam em outros mercados.
Mais do que um “tiro no pé”, o caso simboliza um recuo estratégico. Não por falha do produto, mas por um ambiente onde política, tarifas e interesses industriais falam mais alto que a lógica da transição energética.
Se o futuro dos elétricos passa por escala e redução de custos, interromper justamente o projeto que reunia essas duas qualidades pode sair caro no longo prazo. Agora resta acompanhar se essa pausa será definitiva ou apenas mais um capítulo de incerteza na eletrificação da indústria americana.
Fontes: Bloomberg e Electrek.